O guerreiro da Paciência

home

O guerreiro da Paciência

João Francisco dos Santos nasceu guerreiro no distrito de Ipiranga, município de Igreja Nova, Alagoas. Aos nove meses de idade, sua mãe o largou e sumiu no mundo. “E de lá para cá, “fui crescendo. Quando peguei meu entendimento de gente, sai pelo mundo”, conta o varredor de rua, concursado pela Prefeitura de Piaçabuçu.

E foi logo aos 9 anos de idade que sumiu no mundo e se transformou em Ferreti. Apelido que ganhou pela semelhança com um antigo jogador do CSA, time de futebol de Alagoas.

Na verdade, não quis sumir e sim, encontrar o umbigo do mundo. Foi tentar viver com a mãe em Ilha das Flores, margem sergipana do Velho Chico. O convívio foi doído. A mãe que tinha largado o único filho aos nove meses de nascimento estava novamente frente a um dilema. O companheiro com quem dividia a cama lançou o desafio: “o seu filho ou eu”.

Ferreti correu toda a região da foz do São Francisco. Da Ilha das Flores, voltou a Ipiranga, passou pelo Potengi, esbarrou no Peba e foi se aquietar em Piaçabuçu.

Dessa andança toda, sobraram duas coisas a Ferreti. A primeira é o orgulho de ser honesto e, mesmo pobre, nunca ter caído no crime. Ou como ele mesmo diz, “de tudo no mundo eu fiz para não pegar no que é a lei”.

Já a segunda é o amar por um folguedo que nasceu escutando no terreiro de sua avó: o Guerreiro.

O folguedo, genuinamente alagoano, é semelhante à Folia de Reis em São Paulo, Rio e Minas; o bumba-meu-boi no Nordeste, o Reis-de-boi do Espírito Santo, o Boi-de-mamão do Paraná, o Boizinho dos gaúchos e o Boi-bumbá da Região Amazônica.

Surgido no início do século XX, o Guerreiro é formado por um grupo de cantores e organizadores – geralmente, o Mestre e o Palhaço – e dançarinos, acompanhados de grupo musical de instrumentos típicos da musicalidade nordestina. De uma forma profana, a música do Guerreiro celebra o nascimento de Jesus e a chegada dos três reis magos.

Ferreti participou de vários guerreiros por onde passou, mas só sossegou mesmo quando montou o seu. Hoje ele é o mestre do seu próprio guerreiro mirim, que conta com 40 crianças de 5 a 14 anos.

E é num cercadinho ao lado de sua casa que os ensaios acontecem. O ritmo é contagiante. O trupé – batida dos pés no chão – das crianças levanta poeira. O ajudante do Mestre Ferreti é um palhaço bravo com cara de palhaço, que coloca ordem nas filas de dançarinos.

Ferreti, altivo, vai comandando com o apito e a cada cantiga entoada por ele, o palhaço bravo com cara de palhaço grita: “eu quero ver poeira subir”.

As crianças giram em meia lua com dois pulinhos para um lado e outros dois para o outro. No segundo dobrado de pulinhos, acompanham com duas palmas.

O canto fino das crianças, com o doce sotaque típico do litoral alagoano e sergipano, é poesia…

Até pouco tempo atrás, Ferreti tinha como espectadora dos ensaios do Guerreiro a sua própria mãe. Aquela mesma que lhe abandonou duas vezes quando ainda era o pequenino João Francisco. “Qualquer maneira, foi quem me botou no mundo, com a permissão de Jesus. Então, eu não ia abandonar minha mãe”, fala cabisbaixo Ferreti, mostrando uma de suas principais características: a paciência!

E só mesmo com muita paciência para não excomungar a alma da falecida mãe. Aos 75 anos, ela se enrabichou com um rapaz, 50 anos mais novo. Ferreti foi contra o relacionamento.

Não pagou um preço caro por isso porque o mesmo rapaz, um certo dia, bateu a sua porta e revelou que não teve coragem de atender um pedido que a mãe do Mestre lhe fez: ela pediu ao namorado que matasse Ferreti, seu próprio filho.

E graças a isso, o paciente Ferreti ainda pode levantar, pegar seu chapéu de Mestre, soprar forte o apito e tocar mais um ensaio do Guerreiro Mirim do Bairro da Paciência, Piaçabuçu, Alagoas.

Do trabalho honesto de varredor de rua, limpando o erro dos outros...

Do trabalho honesto de varredor de rua, limpando o erro dos outros...

...Ferreti conseguiu ajeitar o cercadinho para se tornar mestre de Guerreiro...

...Ferreti conseguiu ajeitar o cercadinho para se tornar mestre de Guerreiro...

...com orgulho de ser um griô de uma tradição alagoana de quase um século...

...com orgulho de ser um griô de uma tradição alagoana de quase um século...

...ajudado pelo seu fiel escudeiro, o palhaço bravo com cara de palhaço...

...ajudado pelo seu fiel escudeiro, o palhaço bravo com cara de palhaço...

..tendo fôlego para soprar seu apito e chamar toda a criançada para a dança...

..tendo fôlego para soprar seu apito e chamar toda a criançada para a dança...

...embalada pela cantiga profana...

...embalada pela cantiga profana...

eu já fui prefeito, fui vereador

também fui governador

fui deputado e senador

Agora, meu palhaço,

nós vamos louvar a imagem do senhor

...e salpicada pela pisada firme e ritmada de seus comandandos...

...e salpicada pela pisada firme e ritmada de seus comandandos...

...crianças do bairro da Paciência que, pelo menos, tiveram um Mestre sem mãe.

...crianças do bairro da Paciência que, pelo menos, tiveram um Mestre sem mãe.

pois sou eu o mestre Ferreti,

a minha voz que lanço o Brasil inteiro

sou verdadeiro, minha rima é boa

na Paciência cheguei para cantar guerreiro

home