O dia que Aladim não realizou desejos
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As escunas lotadas de turistas brancos, lambuzados de protetor solar, parte do cais de Piaçabuçu duas, três vezes por semana. Ligam o forró brega e iniciam a descida até a foz do rio São Francisco.
O guia faz a explicação sobre a última ilha do Velho Chico, a Ilha da Criminosa, como alguns moradores da região a batizaram. Assim a chamam porque eram nos seus galhos que ficavam presos os corpos de pessoas assassinadas e lançadas nas águas do São Francisco.
E a diversão é garantida quando as escunas, lambuzadas de turistas brancos protegidos do sol, atracam nas areias das dunas da foz, no lado alagoano. De longe, só os mais esclarecidos ou interessados – raríssimos – se encantam com o farol tombado no meio do mar, ao longe. Lá no lado sergipano. Onde antes existia o Cabeço, povoado engolido pelo mar e que simboliza a morte lenta do Velho Chico.
Os protetores solares, ao som do forró brega, embarcam nos turistas que seguem de volta a Piaçabuçu nas escunas brancas.
Nesse tempo todo, Francisco Calixto estava bem atrás daquelas dunas. Na verdade, “morros”, como os moradores daquele pedaço de terra chama as dunas de areia. Com meio corpo atolado na lama da várzea, seguia a labuta diária de construir “muradas”: muros de argila onde são plantados coqueiros, cercados por baixadas que se enchem de água.
Há mais de 20 anos, Chico vive de servir aos donos de propriedades da foz do São Francisco, seja na cata do coco ou na feitura da murada. São cinco dias da semana à disposição dos latifundiários do coco – algumas propriedades chegam a impressionante marca de 1.600 coqueiros -, com a renda de R$ 125,00 semanais. “No sábado e no domingo, passo fazendo armadilha para caranguejo e na pesca lá no Pixaim”, conta.
E é no Pixaim que vive. Um lugar mágico por dois sentidos: pela beleza e pela inacreditável existência de moradores em seus morros de areia. São 28 casas espalhadas por gigantescos montes de areia, que se alteram ao longo dos anos, ao sabor do vento forte. Fica bem na quina do mar com o rio São Francisco.
As únicas casas que não são engolidas pelos mutáveis morros são aquelas que se plantam aos pés dos cajueiros. Verdadeiras muralhas contra o vento forte do mar.
No inverno, ainda é possível ver algumas lagoas rasas de água. Mas no verão, a água mais próxima no olhar está a quase dois quilômetros de distância. E é salgada. É a do mar.
A salvação está debaixo dos pés, na areia fervente. São as cacimbas: buracos que os moradores cavam na areia até encontrar a água doce, fria e incrivelmente limpa.
Ali, Chico, a esposa e os dois filhos sobrevivem. São um dos poucos que ainda enfrentam a aridez completa. “Antigamente, tinha até campo de futebol, sinuca e várias bodegas. Era divertido. Às vezes, tinha uma brincadeira de sanfona. Tinha carnaval no morro, pegando o passo no morro com o sanfoneiro atrás. E agora não tem mais nada disso porque as pessoas são poucas”, relembra Chico Calixto.
Os filhos adolescentes contam os dias para mudar dali, mas Chico e a esposa ainda resistem. “Aqui é melhor do que o Potengi”, defende Chico, citando o lugarejo mais próximo, onde já tem rua, água, luz e a areia não engole as casas. Mas se perguntado se continuaria morando no Pixaim se fosse moço: “não, já tinha ido embora”.
Chico é um dos oito filhos de Aladim Calixto, o mais antigo morador do Pixaim. Há mais de 50 anos morador dos morros de areia da foz do São Francisco.
Lâmpada, Aladim nunca viu por lá. Só mesmo a luz da lua e o vento dos morros. E se uma tivesse e oferecesse três desejos ao filho Francisco, talvez não teria o que realizar, pois onde se precisa cavar a areia para beber água, é difícil ter tempo para pensar em desejo…

De um lado, o farol tombado do submerso Cabeço...

...do outro, os morros de areia da foz do São Francisco...

...e escondido da felicidade barulhenta dos turistas, Chico Calixto e seus muros...

...suando a vida há dezenas de anos nos latifúndios de coco...

...sem nunca conseguir deixar o seu Pixaim de areia e vento...

...um verdadeiro paraíso para quem não precisa viver ali...

...fugindo da areia, torcendo contra o vento e cavando pela água...

...num galgar interminável pela sobrevivência de todo o dia...

...mas sempre com a cabeça erguida, como Francisco e seu doutorado em Bravura e Honestidade.







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