11 corpos e um mistério
homeA palavra “cantinho” pode trazer infinitos significados. Lugarzinho pequeno, aconchegante; beirada, lugarzinho tranqüilo. E em alguns casos, é usada para definir o lugar predileto das pessoas: “esse é meu cantinho preferido”.
Se os 2.700 quilômetros do rio São Francisco têm um “cantinho”, sem dúvida, esse lugarzinho gostoso, aconchegante, tranqüilo e de beirada é Piranhas, cidade de Alagoas. O mais lindo e colorido pedaço de margem de todo o Velho Chico.

“Lugar bom para não pensar em nada é o cantinho da gente ao por do sol...”

“...e cantinho do São Francisco é a cidade de Piranhas...”
Este cantinho é tão pequeno que mal dá conta de segurar tanta história que já presenciou. E foi assim, por não conseguir guardar segredo, que Piranhas deu com a língua nos dentes. E em cantinho pequeno, notícia corre veloz. Tão rápida que foi capaz de derrubar o rei do sertão: Capitão Virgulino Ferreira.
Foi a polícia de Piranhas que desceu o rio São Francisco, atravessou para a margem sergipana, no município de Poço Redondo, e matou o mais temido bandoleiro da história do Brasil, num pedacinho de terra conhecido como Grota do Angico.

– “...com seu colorido que pinta a caantiga com glórias....”

“...e tristezas em histórias do Cangaço e do Velho Chico...”
A história daquele 28 de julho de 1938 já foi tema de milhares de livros, teses de mestrados e doutorados, filmes e documentários. Somados não dão um décimo da quantidade de vezes que Francisco Correia subiu e desceu a trilha do Angico, contando a saga final do bando de Lampião para turistas. A única pessoa que talvez tenha contado o fim de Virgulino mais do que o Novo Chico (como Francisco mesmo se denomia: “esse é o Velho Chico e eu sou o Novo Chico”) é o seu cunhado, criador do roteiro turístico “Rota do Cangaço” e hoje diretor do museu de Piranhas, Jairo Oliveira.
Foi com ele que Francisco aprendeu tudo sobre a tarefa de ser guia turístico, profissão desempenha desde os 15 anos. “Vi o jeito que Jairo conduzia as pessoas, passava as informações. Antes eu tinha até medo de falar”.
No início, foi uma bela extensão da infância, pois a trilha para os turistas conhecerem o local da morte do Rei do Cangaço acontece dentro da fazenda onde Francisco fazia suas estripulias de criança e adolescente. O terreno pertence à sua família, ou melhor, pertencia a Pedro de Cândido, coiteiro de Lampião e peça-chave na tragédia épica que foi sua morte. “Na verdade, tio Pedro não era coiteiro. Era coitado! Ou protegia ou morria”.
E ninguém melhor do que o mais famoso guia de Piranhas para contar essa história:

“....algumas delas contadas pelo Novo Chico, o guia que mais vezes...”

“...desceu o São Francisco, como fizeram os ‘macacos’ para matar o capitão.”
“No dia 27 de julho de 1938, tio Pedro e tio Durval foram buscar gado e se defrontaram com o grupo de Lampião, que pediu para que Pedro fosse a Piranhas comprar mantimento. Só que comprou em grande quantidade, o que levantou suspeita da polícia de Piranhas. Joca Bernardes, que era coiteiro da polícia, quando viu Pedro comprando mantimento em grande quantidade disse: ‘oxente! Pedro não é comerciante. A família dele é pequena. Para que ele quer 10 quilo de queijo, 10 litros de cachaça, 10 quilos de carne? Isso é para Lampião’.
Então, Joca informa sargento Aniceto que, para enganar Pedro, vai até a feira e diz que a volante (grupamento policial) iria para Moxotó, cidade próxima de Água Branca, pegar Lampião.
Pedro de Cândido desce até Angico, deixa os mantimentos com Lampião e sem perceber, passa a informação errada. Lampião fica muito despreocupado na grota por dois motivos: primeiro porque teve a informação de que a polícia estaria atrás dele em Moxotó. E segundo, porque ele tinha a proteção do governador de Sergipe que era o interventor Eronildes de Carvalho, que tinha Lampião como o seu pistoleiro. Em troca desses favores, Lampião recebia armas e munição. É por isso que quase sempre ele tinha armas mais poderosas que a própria polícia.
A volante desce com 48 policiais e vai até Entremontes, encontra tio Pedro que, sob tortura com faca na barriga e nas unhas, conta que Lampião está escondido no lado sergipano. Pedro leva a volante até a margem do São Francisco. Durval, seu irmão, quando o vê sangrando, aceita levar os policiais até a Grota do Angico.
A volante fica entocaiada até às 5 da manhã do dia seguinte, quando Lampião acorda e pede Amoroso para pegar água para o café, porque eles iriam embora naquela manhã. Amoroso dá de cara com um policial, que não se conteve e dá o primeiro tiro. Lampião saiu correndo da barraca e pergunta: “o que foi isso Amoroso?”. Neste momento, é surpreendido com um tiro no pescoço. Lampião foi o primeiro a morrer porque o tiro em Amoroso pegou na sua cartucheira. Daí por diante, foi uma chuva de balas.
Na grota foram mortos 11 cangaceiros e um policial. Os cangaceiros foram degolados. Da grota, a polícia levou 5 quilos de ouro, 1 mil contos de réis e as cabeças dos cangaceiros. Lá morreram Lampião, Maria Bonita, Enedina, Mergulhão, Luís Pedro, Quinta-feira, Elétrico, Alecrim, Macela, Moeda, Colchete. Lampião morreu aos 40 anos e Maria Bonita, que foi degolada viva, aos 27.
As cabeças foram para Piranhas e depois foram morbidamente peças de uma exposição itinerante que passou pelas cidades de Santana de Ipanema/AL, Maceió e Salvador, onde ficaram expostas por 31 anos”.
Ao final de mais um dia de trabalho, contando a história da morte de Lampião, Francisco termina com a mesma dúvida que lhe aflige há anos: “após degolarem os cangaceiros e levarem as cabeças para Piranhas, os policiais deixaram os 11 corpos na grota. Só que até hoje ninguém sabe onde foram parar os corpos”.
Uns suspeitam que os cangaceiros sobreviventes voltaram à Grota do Angico e enterraram os corpos. Outros afirmam que as águas do riacho cheio levaram os corpos, desaguando o mistério no fundo do São Francisco.

“E a Grota de Angico foi leito de morte do mais temido grupo de banditismo do Brasil...”

“...exterminado por tocaia e uma chuva de balas...”

“...para terem suas cabeças como troféus, seus nomes como histórias e seus corpos como lenda.”







24 Comentários
Comentar | RSS dos comentários [?]