Vila Poty e o muro de barrar poeira
homeTheodoro Sampaio, na sua passagem pelas cachoeiras, imortalizou a frase que mais próxima chegou da fidelidade com aquela beleza: “Paulo Afonso vê-se, sente-se, não se descreve”.
Até Dom Pedro II esteve aos pés das cachoeiras para vê-las, senti-las e só assim acreditá-las.
Sorte teve Dom Pedro II, pois hoje não se pode mais ver tudo aquilo no seu esplendor. A partir de 1949, o pequeno lugarejo de Forquilha, então já parte do município de Glória, se tornou um oásis de concreto no meio de um sertão quente, árido e pouco habitado.

"As cachoeiras de Paulo Afonso se viam e hoje só se tenta descrevê-las...

...mas a beleza do canyon do São Francisco ainda guarda...

...as lembranças dos tempos em que a pequena Angiquinho era gigante...
Os calangos da caatinga que já haviam se assustado com a minúscula, porém extremamente épica, usina de Angiquinho – capítulo inacreditavelmente ignorando na história de desenvolvimento do Brasil contada aos estudantes do “Sul” -, agora se paralisavam, ainda mais hipnotizados. Viam crescer o monstro de concreto da primeira usina hidrelétrica de Paulo Afonso.
A região que no passado foi reduto de índios, divididos entre povos, tribos e cabanas, ganha uma nova divisão. Geograficamente mais simples, mas socialmente extremamente complexa e perversa.
Forquilha se divide entre a “Cidade Chesf” e a Vila Poty. Literalmente separadas por muros de concreto de um metro e meio de altura e arames farpados. De um lado o acampamento da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), com toda estrutura de casas, lojas, clubes, padarias, hospitais e muito concreto. Do outro, a Vila Poty, repleta de retirantes, vindo de diversas regiões do sertão nordestino, se amontoando em miseráveis casebres de taipa. O sonho deles era se tornar um “cassaco”, como eram chamados os peões que trabalhavam na obra da usina. Uma espécie de “candango” do sertão.
“Tinha um muro que separada o acampamento Chesf da vila, que a gente chamava Vila Poty. Por que Vila Poty? Porque as casas eram cobertas com os sacos de cimento que sobravam da obra da hidrelétrica. Era da marca Poty. A população era muito pobre. Era bastante segregado. O acampamento onde se tinha de tudo e uma vila onde não se tinha nada”.

...sem pensar que um dias aos pés das cachoeiras um gigante maior se aproximava...

...veio o concreto, homens, ferros , arames e muro...
José Francisco de Araújo Filho, 44 anos, se lembra muito bem desta época. Assim como qualquer filho dos funcionários da obra da hidrelétrica, nasceu no hospital da Chesf e cresceu dentro dos muros. Assim, se tornava um “chesfiano”.
À época, o termo foi criado como forma de diferenciar os moradores da “Cidade Chesf” dos indesejáveis e empoeirados habitantes da Vila Poty.
Atualmente, “chesfiano” é como se auto-intitulam, com extremo orgulho, os funcionários e ex-funcionários da Chesf. Mas também é uma forma pejorativa com a qual os críticos da Chesf se referem ao pensamento da empresa.
Amor e ódio à parte, o certo é que hoje a Chesf – com suas 14 usinas hidrelétricas, sendo seis em Paulo Afonso – é a maior geradora de energia do Brasil, respondendo por 84% da energia do Nordeste e 14% do Brasil.

...onde meninos viram homens, aprendem a viver...

...e neste mundo de concreto seguir seu caminho...
E isso é motivo de orgulho para o Chico da Chesf que tem uma carreira de operador de instalação a assessor da gerência. Em 26 anos dentro da empresa, é um dos mais dedicados funcionários da unidade de Paulo Afonso.
Desde o interior de uma turbina até os jardins da portaria da usina de Paulo Afonso, nada passa despercebido ao olhar de Chico. Ele cuida de cada pedaço da empresa como se fosse um filho. Sua trajetória de sucesso e batalha na empresa não lhe tirou o bom humor e a simpatia:
“Ei, cabeção!”, grita Chico, cumprimentando com um sorriso maroto todos os colegas de trabalho que cruzam por ele.
As turbinas de Paulo Afonso geram não só energia. Elas geram o sangue que corre nas veias de Chico.

...como Francisco, gerado, nascido, crescido nas hidrelétricas...

...sempre alerta com os turbilhões de energia que precisa dedicar todos os dias...

...a cada pedacinho daquele mundo de concreto...

...que lhe abre caminho para se orgulhar...

...de ser exemplo de batalha, dedicação e entrega...
Apesar de toda a dedicação exemplar ao trabalho, Chico não perde seu senso crítico. Ele lembra que a vida em Paulo Afonso não mudou tanto em relação aos seus tempos de menino. O muro caiu e os royalties pagos pela hidrelétrica injetam bastante recurso no município de Paulo Afonso, mas os resquícios de segregação continuam vivos e evidentes.
“A segregação existe do mesmo jeito. Derrubou o muro de pedra, mas o muro social existe ainda. Aqui ainda tem muita gente pobre. Não era para existir pelo que entra de recurso na cidade. Se você for nos bairros mais afastados aí, não tem muro, mas tem aquela mesma segregação, a pessoa com a casinha de taipa, com saco de cimento, ainda existe”
Assim como nem todas as glórias são da Chesf, nem metade das desgraças apontadas pelos críticos realmente devem ser computadas na conta da empresa. Ou pelo menos, devem ser vistas com reservas.
É certa a queixa de pescadores e ambientalistas de que a vida aquática do Baixo São Francisco foi ferida de morte pelas represas das hidrelétricas. E que também não existe compensação social capaz de reverter isso.
Por outro lado, também é preciso jogar à luz alguns questionamentos: com qual energia você preferiria estar ligando o seu computador neste momento? De uma usina nuclear? Da queima de carvão vegetal ou mineral?
Talvez fosse melhor a sociedade aceitar viver sem energia elétrica, sem internet, com a luz do luar, o calor do sol e a voz como único meio de comunicação.
Enquanto isso, muitos chesfianos, assim como Chico, poderiam estar às margens das ex-cachoeiras de Paulo Afonso matutando:
“será que alguém em São Paulo estava pensando nos peixes do São Francisco, enquanto estava preso no elevador, durante o último apagão?”

...de um mundo concreto e água, pedra e água, energia e briga."







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