A desconfiança do mineiro
homeTeríamos de enfrentar alguns quilômetros de uma estrada de terra cheia de desvios e surpresas. E o aviso não era bravata. Cruzamos um trecho de mata ainda quase inexplorada. Tivemos a companhia de calangos gigantes, cobras, muitos pássaros e até um filhote de veado campeiro que cruzou nosso caminho assustado e em disparada.
Passado o susto do bichinho e o nosso, chegamos ao primeiro porto mineiro: Manga.
A Manga dos caboclos, escravos e filhos de Pernambuco hoje se tornou uma cidade tipicamente mineira. É a Manga dos emboabas, de Manoel Nunes Viana.
Não gosta de ser chamada do último porto mineiro no São Francisco. É sim o primeiro porto mineiro do Velho Chico.
É a Manga que anuncia a poesia e prosa dos mineiros. É a primeira cidade das terras da liberdade.

Se no passado, assim como quase todas as cidades ribeirinhas, Manga viveu na dependência do rio São Francisco, hoje a cidade vive em função das balsas.
Faça lua, faça sol, três balsas barulhentas cruzam o São Francisco incessantemente. Do outro lado, a cidade histórica de Matias Cardoso, que ainda briga com unhas e dentes para ser reconhecida como o berço da civilização em Minas Gerais.
Em poucas horas no novo pouso, percebemos que ali no porto das balsas, se não estava o coração de Manga, estava o seu pulmão. Onde o translado era de gente, bicicletas, carros, caminhões e muito carvão. Tudo num ritmo de respiração, onde se aspira o ar para uma margem do rio e expira para a banda contrária.
E desse universo viria o nosso personagem: Tim da Balsa. Dono da mais antiga balsa em atividade no porto de Manga.
Passamos uma tarde à caça de Francisco “Tim”. Desconfiados da nossa insistência por achar o patrão, os funcionários da balsa resistiram ao máximo para nos fornecer informações sobre seu paradeiro.
Desde quando finalmente encontramos Francisco “Tim”, até o último momento da nossa estada, ele manteve um pé atrás quanto ao nosso objetivo.
Desconfiado, adiou ao máximo a nossa prosa. Ressabiado, tentou fugir da sessão de fotos. Até da despedida, arrumou forma de se ausentar.
Esse foi o nosso personagem em Manga.
Depois de tanto tempo na alegre Bahia, cruzamos a divisa com Minas sem ver a tradicional placa que marca o encontro de dois estados brasileiros. Mas nenhuma placa seria tão informativa para nos dizer que estávamos em Minas quanto foi a desconfiança do mineiríssimo Francisco “Tim”.

“No passado de fartura do São Francisco...”

“...Manga foi um dos mais belos portos para as embarcações...”

“...mas em um tempo de opulência que desapareceu como pó...”

“...deixando as balsas como suspiro de vida nas águas do Velho Chico...”

“rasgado, dia e noite, pelo barulho dos motores...”

“...e pela felicidade do partir e chegar de pessoas e carros...”

“assim como Os Chicos: triste por deixar a Bahia, mas eufórico por respirar Minas Gerais.”







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