A vergonha de ser cúmplice
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Canastra do nascimento. Pirapora da navegação. Lapa da fé. Sobradinho da represa. Juazeiro do porto. Paulo Afonso da cachoeira. Penedo da história.
Isso tudo é São Francisco. São os principais capítulos urbanos da história da ocupação branca do Velho Chico, segundo os moldes de um livro de geografia.
Uma injustiça com milhares de outros pontos das margens do São Francisco, que só de municípios possui mais de 500. E Januária ocupa o posto de baluarte dos excluídos.

Adentrando a cidade com a intenção de doar nosso suor por Januária, chegamos a imaginar que em 72 horas seríamos capazes de tirá-la do ostracismo que sua envergadura não merecia.
Tínhamos armas boas para nossa batalha: um céu límpido, bastante tempo para pesquisar, bons contatos previamente feitos e, principalmente, um personagem espetacular já encaminhado: Chico Preto, um dos mais completos violeiros não só das barrancas do Velho Chico, mas de Minas Gerais.
E fomos à batalha. Lança, espada e escudo em punho. Nas primeiras horas, descobrimos que acompanharíamos uma das mais antigas tradições religiosas de Januária ainda hoje cultuada: a novena da Santa Cruz, que se inicia com a subida do mastro – solenidade de fixação do enorme mastro no chão da praça onde acontece a festa – e segue com rezas, ladainhas, apresentações culturais, leilão e muitas barraquinhas de comidas típicas da região com o cascarrão e o arroz picado.
Fomos à festa porque Chico Preto iria tocar durante os nove dias, inclusive na subida do mastro, o que marca o início das festividades.
Ao entrarmos na casa onde o mastro era preparado com muitos enfeites coloridos, ouvimos um tilintar de ferro imaginário. Era o nosso também imaginário escudo de batalha caindo ao chão. Aconteceu porque não nos deparamos com tristeza, resignação. Ao contrário. Encontramos uma comunidade alegre, eufórica, enfeitando toda a praça para receber o mastro e os nove dias de festejo.
Sem escudo, ouvimos os primeiros acordes da viola de Chico Preto. Quase engasgamos com a deliciosa paçoca de carne servida por Dona Léia – a madrinha da Festa da Santa Cruz deste ano. Foi o susto provocado pela beleza da cena de uma dezena de homens jogando o pesado mastro de aproximadamente 10 metros nas costas.
Uma multidão de sorrisos acompanhou a caminhada do mastro pelas ruas do bairro. Pelo ouvido, a música de Chico Preto massageava a alma que bailava ao som do cântico:
Os moradores fazem parte da festa/Em homenagem à Santa Cruz
Os moradores da água doce/Os moradores da Santa Cruz
A estrela do azul no infinito/Onde a lua faz clarão
Cantaremos em louvores/A bandeira de Santa Cruz
A bandeira está desfraldada/Na Praça da Santa Cruz

Era impossível para as pessoas ouvirem o barulho ensurdecedor e imaginário de nossas armas caindo ao chão. Estávamos paralisados diante daquela catarse. A subida do mastro na praça foi acompanhada de uma sequência delirante de vivas e palmas. Batidas de mãos, das quais, implorávamos a ajuda de apenas uma piedosa para ajudar a enxugar as nossas lágrimas de emoção.
O choro de alegria e emoção, que vem acompanhado de um sorriso, meio suspiro, é a única criação do homem que pode chegar a ter sua beleza comparada a qualquer maravilha feita pela natureza.
No dia seguinte, sem escudo, sem lança, sem espada e sem estufar o peito, ainda corremos as águas do São Francisco a bordo do Marujo, barco do nosso segundo personagem em Januária.
Só navegando junto da tripulação de um barco para saber dos segredos e histórias de um rio ou mar. Assim como o feijão abraça, embebeda as partes do porco para dessa feliz promiscuidade nascer a mais saborosa feijoada, a alegria e acolhimento dos januarenses nos inebriou a ponto do mistério ser desfeito.
Do cais, olhando o São Francisco ao longe, veio forte a imagem da Januária do porto, da navegação, da cachaça, das letras, do casario, das tradições folclóricas e religiosas, da alegria contumaz e de seu grito por reconhecimento.
Daquela amurada, percebemos o erro da geografia em não colocar Januária como um dos principais capítulos urbanos da história do rio São Francisco, que em razão das inúmeras cheias e vazantes, hoje corre bem longe do cais da cidade.
Talvez o São Francisco hoje passe longe do cais pela vergonha que sente por ter sido cúmplice da geografia, que não reconheceu a alegria de Januária como um dos mais importantes capítulos urbanos da história de sua ocupação.

“Um rio tão forte, às vezes também erra...”

“...mesmo sendo o guia de histórias e morada de cidades...”

“....algumas delas já misturadas e temperadas...”

“...e até mesmo embriagadas...”

“...pelo descaso dos homens e a injustiça da geografia...”

“...que não sabe admirar a alegria e satisfação...”

“...de uma cidade que adora se cultuar, se enfeitar...”

“...uma cidade que adora sorrir.”







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